Conversão de pastagem em lavoura de cana aumenta emissões de gases de efeito estufa

Um estudo realizado por pesquisadores da Universidade Federal de São Carlos (UFSCar), campus de Sorocaba, constatou que os processos de conversão de áreas de pastagem em lavouras de cana-de-açúcar e de intensificação do manejo de pastos para compensar as áreas ocupadas pela cana aumentam as emissões de gases de efeito estufa, como o dióxido de carbono, metano e óxido nitroso.  A pesquisa, realizada por bolsistas e ex-bolsistas do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq) aponta que essas mudanças no uso da terra podem alterar o balanço de emissões de gases de efeito estufa na produção do etanol de cana no Brasil.

Esses resultados foram publicados em artigo no Journal of Environmental Management assinado por Janaina Braga do Carmo, bolsista de Produtividade em Pesquisa (PQ) do CNPq, professora da UFSCar e principal autora do estudo, Camila Bolfarini BentoSolange Filoso (ex-bolsista de doutorado do CNPq), Leonardo Machado PitomboHeitor Cantarella (Bolsista PQ 1C),  Raffaella Rossetto (ex-bolsista de pós-doutorado), Luiz Antonio Martinelli (Bolsista PQ 1A).

A pesquisa, apoiada pela Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp), é tema do trabalho de mestrado de Camila e contou com a participação de pesquisadores da Universidade de Maryland, nos Estados Unidos, do Instituto Agronômico (IAC), da Agência Paulista de Tecnologia dos Agronegócios (Apta) e do Centro de Energia Nuclear na Agricultura (Cena) da Universidade de São Paulo (USP).

“Observamos que as mudanças no uso da terra associadas à expansão do cultivo de cana em áreas de pastagem e à intensificação do manejo dos pastos restantes aumentam as emissões de gases de efeito estufa, e que a magnitude do aumento é determinada pelo tipo de práticas de manejo do solo, da adubação com fertilizantes nitrogenados e pelas condições ambientais”, disse Janaína.

De acordo com os pesquisadores, atualmente extensas áreas de pastagem de baixa produtividade e intensidade têm sido convertidas em plantações de cana no Brasil. Somente na última década a área plantada com cana-de-açúcar no país aumentou cerca de 60%, principalmente à custa de pastagens naturais ou não manejadas e já improdutivas. Quase metade dessa expansão ocorreu em pastagens degradadas ou abandonadas.

Apesar de a expansão da agricultura da cana sobre essas áreas ser considerada positiva, porque impede o desmatamento de florestas tropicais, esse processo afeta as emissões e altera o balanço de carbono e nitrogênio no solo e na atmosfera, uma vez que a aplicação anual de fertilizante nitrogenado e a reforma do canavial no final de cada ciclo produtivo da cana mudam o balanço desses elementos no agroecossistema.

Esse uso crescente de fertilizantes nitrogenados em pastagens e na cana-de-açúcar pode resultar em maiores emissões de óxido nitroso e metano e alterar o balanço de gases de efeito estufa do etanol da cana produzido no país. A magnitude do aumento das emissões desses gases de efeito estufa causado pela conversão de áreas de pastagem em lavouras de cana e a intensificação do manejo nos pastos restantes, entretanto, ainda não estavam claras, apontaram.

“Nossa hipótese era que a emissão desses gases de efeito estufa aumentaria com essas mudanças de uso da terra”, explicou a professora.

“Mas, para nos certificarmos disso, era preciso verificar o que aconteceria com a entrada da cana em uma área dedicada à pastagem por 40 anos, por exemplo, com baixas emissões de gases de efeito estufa e com um estoque de carbono no solo considerável e que passa a ser manejado. Além disso, também queríamos avaliar o que aconteceria em pastagens que passassem a ser adubadas para manter uma produção adequada, de forma a evitar a degradação e suportar a manutenção não extensiva de gado, com animais confinados em uma área pequena, em um sistema de rotação de piquetes”, disse Carmo.

O artigo Impacts of sugarcane agriculture expansion over low-intensity cattle ranch pasture in Brazil on greenhouse gases (doi: 10.1016/j.jenvman.2017.11.085), pode ser lido por assinantes do Journal of Environmental Management em www.sciencedirect.com/science/article/pii/S030147971731160X.

Coordenação de Comunicação Social, com informações da Agência Fapesp